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Os três
métodos de produção de bebidas alcoólicas na Rússia nos séculos
XIV e XV eram a fermentação natural de sucos de frutas e seivas de
árvores, a fermentação natural do mel e o aquecimento do malte de
cereais com posterior fermentação. É possível que a destilação
seja resultado do desenvolvimento destas técnicas.
Uma
particularidade foi a observação de que o centeio era o cereal que
propiciava a bebida alcoólica de melhor sabor para a produção de
cervejas.
A prática de
ferver a mistura dos cereais fermentados pode ter resultado na
destilação acidental do álcool. Por outro lado, há quem não
considere a destilação do álcool um mero acidente já que seu
início, durante o século XV, coincide com o desenvolvimento da
produção de piche a partir do aquecimento da madeira.
De qualquer
forma, sabe-se atualmente que a destilação foi inventada no
oriente e depois trazida para o ocidente. A destilação foi trazida
para a Europa no século X proveniente da China. A partir daí, a
processo se difundiu pelo leste europeu, podendo ter chegado
independentemente à Rússia e à Polônia na mesma época.
Como
conseqüência da aquisição desta nova tecnologia, antes mesmo do
aparecimento da vodka propriamente dita, se obtinha um álcool no
processo de fermentação do mosto da cerveja ou da solução de mel.
Este álcool podia ser ingerido.
Os potes
contendo os fermentados de mel ou o mosto de cerveja eram levados
ao forno e, durante seu aquecimento, ocorria a destilação
espontânea do álcool que se condensava e pingava em tinas
colocadas embaixo dos potes. Quando o mosto de cerveja foi
substituído por farinha de cereais (aveia, cevada ou centeio), se
obteve o álcool do cereal. Este álcool porém, não era puro e sua
obtenção era lenta e dispendiosa. Por isso, a produção de bebidas
destiladas antes do século XV, através do método dos potes, não se
desenvolveu.
Esta análise
permite assegurar que até o século XV a destilação do álcool não
era conhecida na Rússia e que a vodka ainda não fora inventada.
Por outro lado, sabe-se que no início do século XVI a destilação
de cereais para obtenção do álcool já estava totalmente implantada
na Rússia. Portanto, a vodka surgiu em algum momento entre a
segunda metade do século XIV e o início do século XVI.
Obviamente, a
destilação do álcool evoluiu de forma gradual durante vários anos.
Entretanto, o estímulo para a produção do álcool esteve
intimamente ligado a fatores sócio-econômicos.
Um fenômeno
econômico importante foi a introdução do monopólio sobre a
produção e a venda das bebidas alcoólicas destiladas,
concomitantemente ao início da destilação do álcool. Isto porque
as bebidas, particularmente as vodkas, despertavam grande
interesse comercial, pois o valor da bebida pronta ultrapassava os
custos da matéria-prima e de produção em dezenas de vezes. Tudo
associado ao baixo custo do transporte e ausência de problemas de
armazenagem, já que o produto não estragava.
Isto facilitou
a distribuição e a venda da vodka e a tornou alvo de taxação e do
monopólio estatal, ainda mais numa fase de formação do Estado
Russo, na qual havia necessidade de grandes somas de dinheiro.
O surgimento
da vodka marca um dos primeiros produtos industriais descobertos
na Rússia medieval e que exerceu um poderoso efeito sobre a
economia provocando um grande impacto social, pois foi rapidamente
assimilado pelas massas.
As "tavernas
do czar" foram os estabelecimentos comerciais estatais que
promoveram a venda de vodka em larga escala.
Do ponto de
vista social, as tavernas propiciaram o aparecimento de uma nova
camada social, os pobres urbanos: rebeldes e alcoólatras.
O status legal
(monopólio) e o status social (venda em escala) para a vodka,
reconhecidos pelo Estado, exigiam e asseguravam a produção de uma
bebida da mais alta qualidade possível para aquele determinado
período. Tudo isto para garantir o prestígio do Estado com relação
ao produto e impedir sua falsificação.
Assim, a vodka
só pode ser realmente considerada vodka quando se transformou num
produto cuidado e protegido pelo Estado.
Na segunda
metade do século XIV, o Grão-Principado de Moscou era o maior e
mais poderoso principado russo. Sua agricultura era bem
desenvolvida e apresentava condições para ampliar seu potencial em
assimilar inovações tecnológicas.
Estas
condições em Moscou eram:
1. População
estabelecida
2. Agricultura
desenvolvida
3. Mais
cidades (comércio de excedentes)
4. Mosteiros
equipados para produção
5. Maior
demanda por mel e cera
6. Produção de
cereais para exportação
7. Necessidade
de lazer e distração
8. Centro
político
Assim Moscou,
como primeiro estado centralizado da Rússia reunia as condições
políticas, econômicas, sociais e tecnológicas para a produção da
vodka. Considerando-se a exigência de monopólio do Estado sobre a
produção da vodka, o que somente poderia acontecer sob um Estado
centralizado e autocrático, é factível se afirmar, pelo menos de
forma indireta, que a vodka surgiu no principado de Moscou.
Fato
significativo foi o de a bebida ser expressa como "vodka de
Moscou" desde o século XVII até o século XIX, estando firmemente
inserido na fala popular.
Os vários
fatores que solidificaram o Estado de Moscou nos séculos XIV e XV
culminaram numa situação de prosperidade que pode ter sido
conseqüente à ou ter resultado na produção da vodka. Isto deve ter
ocorrido entre 1460 e 1500.
Assim, é claro
o fato de o desenvolvimento econômico de Moscou nos séculos XIV e
XV proporcionar o surgimento da destilação do álcool em
decorrência do apogeu da agricultura, com seus excedentes de
cereais. A data mais tardia para o aparecimento da vodka é o ano
de 1478, quando foram introduzidos o monopólio estatal e a taxação
sobre a produção de sal e vodka.
A Igreja,
através dos mosteiros e de toda infra-estrutura que estes possuíam
(pessoas tecnicamente dotadas, conhecimento da técnica de
destilação e equipamento necessário), além de terras (que
permitiam o cultivo de cereais) aliado à isenção dos "impostos do
Czar", levam à conclusão de que a destilação do álcool de cereais
surgiu no Estado de Moscou, provavelmente num mosteiro na Cidade
de Moscou entre 1440 e 1478.
A ausência de
registros sobre a vodka na segunda metade do século XV talvez se
deva à revolta da igreja (os monges eram os cronistas) com as
conseqüências do aparecimento da bebida, a embriaguez.
De qualquer
modo, é indiscutível que a produção de destilados se iniciou nos
mosteiros e que a destilação do álcool se transformou num dos
comércios da economia na segunda metade do século XV, quando o
monopólio da vodka se estabeleceu.
Uma análise
mais apurada dos fatores sócio-econômicos leva à conclusão de que
a vodka surgiu na Rússia entre 1448 de 1478.
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